segunda-feira, 8 de junho de 2015

Do inferno ao ordinário

De noite, deitada na cama, senti braços gelados me segurando muito forte e me prendendo e me afundando no colchão. De repente tudo era gelado. Quando consegui me libertar, me debati nas paredes feio barata de asas.
Quando acordei, de manhã, apesar do sol amarelo vibrante no meio do céu azul limpinho, meu quarto era nublado. E eu não fiz mais nada. 
Inútil, eu ouvi. 
Você não tem força de vontade, eu ouvi.
Levanta. Tem aula. Procure emprego. A aula. Tá todo mundo falando. Vai.
PRE
GUI
ÇO
SA.
Você tá engordando. Você emagreceu demais. Parece doente.
É porque não faz
NA
DA.
Nada, Luana, nadei num mar gelado e dolorido. Sem saber nadar, boiei. Tô a deriva esperando salvação, com medo de me mexer e me afogar, porque eu tenho medo do mar. Porque eu não sei nadar. 
Tô num buraco fundo e gelado, com medo e sem reação. Na linha dos lábios eu peço silenciosamente e desesperadamente por socorro, mas as pessoas ouvem preguiça. 
Eu preciso de ajuda.
O buraco chama depressão. 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Mais café do que leite

Saí do trabalho às 17h30 e fui correndo para casa, sem subjetividade, apenas literalidade: eu fui, literalmente, correndo para casa. Minha última refeição tinha sido às 6h30 da manhã, entre uma discussão e outra com meu namorado sobre a margarina que ele não queria misturada no queijo em seu pão francês. Para encerrar a discussão, comi o pão que tinha feito e deixei que fizesse outro. Outro pão, outro café com leite (mais café do que leite (mas muito açúcar)). Então, enquanto assistíamos ao jornal, iniciamos uma discussão sobre a margarina, o queijo e o pão. Meu café-da-manhã foi bem saudável. Correndo no caminho para casa deu saudade do café-da-manhã e ansiedade pelo próximo. Era a única refeição que fazíamos juntos, discutindo sobre a composição do sanduíche, o equilíbrio perfeito entre café, leite e açúcar, e, em alguns dias, enquanto passavam notícias esportivas, ele me explicava algo sobre futebol, o campeonato europeu, como odiava o Cristiano Ronaldo e adorava o jeito do Neymar Jr. jogar, falava sobre seu medo de passarmos vergonha durante a Copa e sobre como nem ligava mais para o Coritiba. Atravessando a rua senti cheiro de café. Deu saudade. Deu fome. Às 18h30 eu precisava estar no Bigorrilho para encontrar meu aluno particular para mais uma aula de redação, era 17h50, eu estava no Água Verde, correndo para casa. Foi a primeira coisa que descobrimos em comum, o primeiro índice a promover o sentimento que atacou ali: o amor por café. Descobrir sabores, pequenos bistrots, tipos de leite, sem leite, com ou sem açúcar, em momentos oportunos e inoportunos. Lembro que um dia ele foi jogar bola no domingo de manhã e me deixou dormindo e, bem, era domingo, então quando ele chegou, lá por meio dia, eu ainda estava dormindo. Senti o cheiro de café num meio termo inconsciente e algum tempo depois ele me acordou todo inseguro, com duas canecas fumegantes nas mãos, o cheiro fresco de café forte e perfume Malbec e o maior sorriso do mundo "você gosta de café, né?".
Sim, meu amor, eu gosto de café. 
Cheguei em casa afobada, suspirando, lutando com os pulmões, desastrada, ofegante. Mal entrei na sala e senti o cheiro fresco de café e perfume Malbec, o maior sorriso do mundo "você quer café, amor?"
Não, agora eu quero a vida com você.
Mentira. Eu quero café sim. Mais café do que leite, mas pouco açúcar, por favor. 

Inevitável interrupção

Têm janelas imensas nesses teus olhos
me enxergam, me devoram, me espalham
Antes eu te via como redenção
hoje eu nem te vejo mais

Quem foi o monstro que te privou de mim
onde esconde o dragão que te levou?
A qual magia se entregou por fim
Por que não gritas a aflição que sentiu?

Dentre tantas as perguntas borradas de dor
há o lamento que responde a todas elas:
foi o destino que te arrancou de mim

Com o drama da situação não pude me despedir
mas ah, como foi doce, tão doce quando o contínuo
que doce foi o nosso fim

domingo, 13 de abril de 2014

À dona Perdição

Havia uma pedra no meio do caminho
catei ela e pus no coração
mal imaginava que neste caminho
a pedra aqueceria o que esfriou

Eu esperava ficar protegida
e o mundo na rocha isolou
a pedra virou papel tomado a linhas
a frieza a poesia inspirou

Saudades do tempo iludida
o amor para mim iluminou
estou prestes a pedir por ajuda
não sabia que amor amarrava a forca
e a corda chicoteava o domador

Socorro, Marilia, socorro
que perdida entre seus seios morro
ensina-me a lidar com o saber
que por entre seus dedos escorro

segunda-feira, 31 de março de 2014

Ilusão

   Dizem que aos 18 anos você não sabe o que é amar. Bom, também me disseram que aos 12 eu não sabia... E provavelmente aos 30 me dirão que eu ainda não terei bem certeza do que é. Certeza, certeza eu acho que nunca vou ter mesmo. Mas de uma coisa eu sei: enquanto houver momentos assim com você, seja em um bistrô com um mocaccino, na nossa cama com um café e um Doors, ou na rua com o vento no rosto, eu sei o que é amor e o encontrei aos 18 anos de idade. Porque pessoas como eu já nascem sabendo amar, e, se o conceito de amor é uma ilusão, então rezo para morrer iludida. Iludida e ao seu lado.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Enfim liberta na prisão

O dia nasceu trazendo escuridão
não imaginei que um eclipse solar
não trouxesse solidão
nunca imaginei que a luz apagada
me fizesse viajar além
das janelas fechadas
que me lembram que alguém
as mantém lacradas
para eu ficar bem

quarta-feira, 19 de março de 2014

Next level

   Começou? Sim, caros, a vida chegou. 
   Chegou trazendo uma casa nova no centro e um emprego a mais.
   A responsabilidade bateu.
   Ontem quando entrei em casa não senti mais como se fosse minha casa... Não me vi mais deitada naquela cama box, meus livros pareceram deslocados naquela estante, meu reflexo no espelho era o de visita. E vou ser visita até entrar naquela casinha de cômodos pequenos, de mãos dadas com o meu amor e transformar aquilo num lar. Num lugar habitável e quente. Quando eu disser que aquela cama de casal e aquele armário de mogno são nossos, então a vida sorriu pra gente.
   Loucos, eles disseram, vocês vão voltar na primeira semana.
   Não se desiste da vida assim, em uma semana. É loucura? É. Não nego. Mas mais loucos ainda são os que não têm coragem de tentar. Tô vivendo bem, vou sair sem olhar para trás e procurar minha felicidade.