domingo, 5 de junho de 2016

Saudade

Estive olhando sua imagem a noite toda... Ela dormindo assim tranquila na meia luz do abajur amarelo de seu quarto faz minha respiração ficar mais agitada, seu rosto redondo e claro emoldurado pelo emaranhado de cabelos escuros e a boca entreaberta me faz ter vontade de acordá-la e um amor enorme enche meu peito de orgulho por aquela mulher estar numa cama que eu posso chamar de nossa. Sorrio e beijo sua boca. Ela se mexe um pouco e sorri também. Ela está dormindo e talvez meu beijo tenha entrado em seus sonhos. Quase nem parece que o mundo desaba janela a fora, de chuva e de lágrimas. O aperto em meu peito deve ser só angústia por ter de enfrentar a segunda-feira daqui algumas horas. Uma segunda-feira chuvosa e gelada de quase-inverno. Vou ter que deixar aquela cama de edredom amarelo e lençol azul, quente como sua pele, com o calor do seu abraço e a preguiça na voz de quem diz: "acorda, amor, já tá na hora". Quando deito e me encaixo no seu corpo encolhidinho ela geme e corresponde à anatomia. A pele firme e macia me faz ter vontade de ficar naquele peito pra sempre, seu perfume de creme hidratante e suor me faz ter arrepios na boca do estômago e fecho os olhos para gravar a lembrança, porque de repente sei que ela não está ali. O cheiro do quarto é gelado e não tem ninguém comigo. Sonhei de novo. Ela não está aqui. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Nas paredes brancas feitas de gelo existe a sombra de um casal que já foi materializado
O desprezível silêncio do fim se esconde atrás das cortinas
O adeus não dado se acomoda nas prateleiras do armário
E espera o momento de solidão para encher o apartamento do subúrbio de melancolia

E envolve, entorpece, feito lança perfume, feito fumaça de maconha em ambiente fechado
Amortece

E de repente

dói

segunda-feira, 13 de julho de 2015

O que antes era sol
hoje é guardado
por paredes de Alasca

Dizem que lá nunca anoitece.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Do inferno ao ordinário

De noite, deitada na cama, senti braços gelados me segurando muito forte e me prendendo e me afundando no colchão. De repente tudo era gelado. Quando consegui me libertar, me debati nas paredes feio barata de asas.
Quando acordei, de manhã, apesar do sol amarelo vibrante no meio do céu azul limpinho, meu quarto era nublado. E eu não fiz mais nada. 
Inútil, eu ouvi. 
Você não tem força de vontade, eu ouvi.
Levanta. Tem aula. Procure emprego. A aula. Tá todo mundo falando. Vai.
PRE
GUI
ÇO
SA.
Você tá engordando. Você emagreceu demais. Parece doente.
É porque não faz
NA
DA.
Nada, Luana, nadei num mar gelado e dolorido. Sem saber nadar, boiei. Tô a deriva esperando salvação, com medo de me mexer e me afogar, porque eu tenho medo do mar. Porque eu não sei nadar. 
Tô num buraco fundo e gelado, com medo e sem reação. Na linha dos lábios eu peço silenciosamente e desesperadamente por socorro, mas as pessoas ouvem preguiça. 
Eu preciso de ajuda.
O buraco chama depressão. 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Mais café do que leite

Saí do trabalho às 17h30 e fui correndo para casa, sem subjetividade, apenas literalidade: eu fui, literalmente, correndo para casa. Minha última refeição tinha sido às 6h30 da manhã, entre uma discussão e outra com meu namorado sobre a margarina que ele não queria misturada no queijo em seu pão francês. Para encerrar a discussão, comi o pão que tinha feito e deixei que fizesse outro. Outro pão, outro café com leite (mais café do que leite (mas muito açúcar)). Então, enquanto assistíamos ao jornal, iniciamos uma discussão sobre a margarina, o queijo e o pão. Meu café-da-manhã foi bem saudável. Correndo no caminho para casa deu saudade do café-da-manhã e ansiedade pelo próximo. Era a única refeição que fazíamos juntos, discutindo sobre a composição do sanduíche, o equilíbrio perfeito entre café, leite e açúcar, e, em alguns dias, enquanto passavam notícias esportivas, ele me explicava algo sobre futebol, o campeonato europeu, como odiava o Cristiano Ronaldo e adorava o jeito do Neymar Jr. jogar, falava sobre seu medo de passarmos vergonha durante a Copa e sobre como nem ligava mais para o Coritiba. Atravessando a rua senti cheiro de café. Deu saudade. Deu fome. Às 18h30 eu precisava estar no Bigorrilho para encontrar meu aluno particular para mais uma aula de redação, era 17h50, eu estava no Água Verde, correndo para casa. Foi a primeira coisa que descobrimos em comum, o primeiro índice a promover o sentimento que atacou ali: o amor por café. Descobrir sabores, pequenos bistrots, tipos de leite, sem leite, com ou sem açúcar, em momentos oportunos e inoportunos. Lembro que um dia ele foi jogar bola no domingo de manhã e me deixou dormindo e, bem, era domingo, então quando ele chegou, lá por meio dia, eu ainda estava dormindo. Senti o cheiro de café num meio termo inconsciente e algum tempo depois ele me acordou todo inseguro, com duas canecas fumegantes nas mãos, o cheiro fresco de café forte e perfume Malbec e o maior sorriso do mundo "você gosta de café, né?".
Sim, meu amor, eu gosto de café. 
Cheguei em casa afobada, suspirando, lutando com os pulmões, desastrada, ofegante. Mal entrei na sala e senti o cheiro fresco de café e perfume Malbec, o maior sorriso do mundo "você quer café, amor?"
Não, agora eu quero a vida com você.
Mentira. Eu quero café sim. Mais café do que leite, mas pouco açúcar, por favor. 

Inevitável interrupção

Têm janelas imensas nesses teus olhos
me enxergam, me devoram, me espalham
Antes eu te via como redenção
hoje eu nem te vejo mais

Quem foi o monstro que te privou de mim
onde esconde o dragão que te levou?
A qual magia se entregou por fim
Por que não gritas a aflição que sentiu?

Dentre tantas as perguntas borradas de dor
há o lamento que responde a todas elas:
foi o destino que te arrancou de mim

Com o drama da situação não pude me despedir
mas ah, como foi doce, tão doce quando o contínuo
que doce foi o nosso fim

domingo, 13 de abril de 2014

À dona Perdição

Havia uma pedra no meio do caminho
catei ela e pus no coração
mal imaginava que neste caminho
a pedra aqueceria o que esfriou

Eu esperava ficar protegida
e o mundo na rocha isolou
a pedra virou papel tomado a linhas
a frieza a poesia inspirou

Saudades do tempo iludida
o amor para mim iluminou
estou prestes a pedir por ajuda
não sabia que amor amarrava a forca
e a corda chicoteava o domador

Socorro, Marilia, socorro
que perdida entre seus seios morro
ensina-me a lidar com o saber
que por entre seus dedos escorro