quinta-feira, 11 de julho de 2013

Adulterado

Tenha dó! Não mereces o afago nem de Deus, nem do Diabo
Quanto mais da mão que um dia eu dei pra ti

A saudade vai bater, mas o meu amor se vai
Tempo voa e quando vê já foi

Não me fale de nós dois, não preciso mais saber
Indo embora, deixo-te um adeus ao vir dizer

Que me ama, que sem mim você não vive
Que foi apenas um deslize, que você preza pelo meu amor


Los Hermanos - Tenha Dó

Era mais uma briga daquelas que acaba em sexo bom. Com coisas quebrando e palavras quebrando coisas. Mas as palavras eram duras demais desta vez e depois que ela batesse a porta, ele não voltaria a abrí-la. Acusações, lágrimas, gritos, um copo estilhaçado e mais bebida do que ele poderia prever. Arranhões e abraços, quem via de longe dizia que era apenas mais uma brincadeira rídicula daquele casal perfeito. Perfeitamente ridículo. Era uma luta, era uma guerra. Amor transformado em ódio e ódio transbordando de tanto amor. Ela não sabia se sentia raiva, dó ou se esquecia tudo aquilo e pulava no colo dele e arrancava sua roupa. Todas as palavras que saiam da boca dele não eram verdade e ela sabia, mas vê-la assim tão desamparada e desesperada o deixava estilhaçado como o copo que ela atirou na janela para aliviar a raiva. Seminua, bêbada, chorosa; machucado, com os olhos inchados, cansado. Eram anos se dissolvendo em nada. Se amavam, claro, mas quem é que vive de amor? Não, o problema não era dinheiro, a situação sempre fora confortável. Onde havia erro então? Ora, caro senhor, o problema estava justamente no amor que sentiam. Era tanto que se completavam e ainda sobrava muito mais. Essa sobra transbordava e escorria e uma hora atingiria outro alguém. Amor de menos engana, sim, e machuca. Ah, como machuca. Mas isso a gente tira de letra, desilusão e essas coisas, o ser humano é acostumado com isso. A gente não sabe conviver é com amor demais. Esse sim, é a pior coisa do mundo.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Em terra de tem-que-ser: Sou rei

Sou aquele que não é:
Na estrada sou verão
No inverno solidão
Sou intenção, perversão e má fé

Não fiz do amor um refém
da saudade, aliado
não sou seu deus, nem diabo
e não os pedi misericórdia ou a outrem

Subversão e pessimismo
Medida de um pé à queda no abismo
Sou o anjo que Deus não quer

Senhor do desdém
Rei de quem sou
E de mais ninguém

sábado, 6 de julho de 2013

The dark side of the Moon

   Barriga para cima, o vento mais gelado do ano, às três e quarenta e quatro da madrugada. Escalamos o muro e deitamos no telhado para ver o céu de estrelas que significava que em breve a geada cairia. Bolsas de água quente, grossas cobertas e dois corações ardendo em febre. O ar da noite de inverno era cortante, mas estávamos derretendo, como sempre. Vinte minutos e nós nem reparamos no céu. Era mais interessante amar no teto. A impressão era que o mundo era nosso e os nossos murmúrios coléricos faziam parte das explosões das estrelas. O mundo não era nosso, afinal, nós é que éramos o mundo.
   A Lua era só metade naquela noite e ouvi como um sussurro "ela é a coisa mais misteriosa que temos, mais que o Sol" e respondi que o motivo de minhas poesias era seu lado oculto. 
   "Eu sou seu lado oculto, Lua" 
   E era mesmo.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Ao céu, atenciosamente

A Lua, ele disse, está linda hoje...
Desviei, então, os olhos dele e os pousei no céu. Estava mesmo esplêndida. descontraída e aliviada pelo assunto aparentemente inofensivo, eu disse: Ah, obrigada. E me arrependi na mesma hora em que ele olhou nos meus olhos. A luz das estrelas os deixaram com um tom magnífico de verde, e por um momento, esqueci como se respirava.
Será que ele não notou que eu corei ao ouvir "você é linda sempre, à luz do Sol ou da Lua."
E pela primeira vez eu não tinha uma resposta, uma piada em má hora ou um comentário inconveniente. E nem tive vontade de fazê-los. Pela primeira vez assumi meu nome. Assumi meu nome e me entreguei à Lua.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Ma chère diary

   Sonhei com você esta tarde.

   Cheguei do trabalho cansada, comi e deitei. Só para descansar. Meus olhos pesaram vendo a réstia de luz do sol penetrar na janela e passar pelos cacos coloridos do filtro dos sonhos. As cores refletiam na parece branca e deixavam o quarto alegre. Dormi feliz. Por isso sonhei com você.
   No sonho você sorria e andava comigo pela praia, de um jeito que você nunca fez antes. Estavamos tão leves, tão novos, o ar era fácil. De repente sua visão embaçou com o espectro de luz na parede do quarto e num segundo você virou cores.
   Eu te perdi p'ra te fazer feliz.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Leitura.

Era como se me arrancassem das nuvens e me devolvessem a elas a cada cinco segundos, a cada duas palavras. Me agarrei ao físico para recuperar a concentração e ergui os olhos do chão para fazer leitura labial. Péssima ideia. O efeito de sua boca era pior que o efeito de suas palavras. Tentei seu olhar. Se aquela ideia era péssima, esta então! Voltei ao chão, mas eu tenho medo de altura. Eu não pisava no chão, tampouco estava nas nuvens. Num arrombo de coragem me joguei batendo os pés na areia. Fugi do trepa-trepa do parquinho e fugi da chance da leitura dos meus olhos. Mais uma vez.

Bad trip.

Enquanto a sensação de que estou sendo seguida permanecer me seguindo
Vou continuar fazendo de conta que não estou sendo percebida
Ser invisível é demasiado fácil, mesmo que eu não seja.
Permaneço querendo-me; mantendo-me em constante recuperação de espírito
Se é que entendes-me.
Consigo manter o mundo fora do meu mundo
E com um simples estalo na língua consigo tudo o que quero sem realmente querer
Mesmo que aquilo não seja real.
Pereço a esmerar a morte tão obtusa e distante da realidade
A odeio.
A morte?
Óbvio que não. A realidade.
Por mim a trip caberia ao eterno
E eu, sem realidade, passaria a ser alucinação
Penso, logo, existo?
Eu penso que não.